Epitáfio

Grave silêncio

que me pesa nos ombros - outrora fundações de mundos alheios

Esperanças, sonhos e outros entretenimentos deixados em mim…

ramificados em mim,

por ter sido absolvido de outros pecados,

objeto de desejos de outrem.


Todos esses capítulos de livros que me escolheram como leitor…

apodrecem em mim, em agudo silvo mudo…

de quem grita no vazio da Indiferença.


Tudo o que me habita é Morte,

é torpor de compostagem humana,
que me pulsa o pensamento,

quando em mim se idealizam finitudes.


Poço-umbral, onde arranco as entranhas, 

e guio as musas para que me devorem o coração.

(Se ainda o tiver)

Serei eu tudo isto que pinto e transpareço para os demais?

Que importa, se me oculto por ser feito de tudo o que não sou?

A impossibilidade do que em mim contenho teoriza-me para longe de qualquer realidade…

Estarei eu ancorado e manietado a pensamentos que somente me assolam e guiam às mais negras profundezas, onde os lambo e incorporo na minha carne, no amargo consumo do que me aprisiona?

Urge deixar a tempestade sair. 

É tempo de abrigar solitude e silêncio. 

Momento de ócio. 

Momento de reclusão…de estancar-me, por me ter esvaído em nome das vossas dores.

Cubro-me com a mesma negrura que me brotou, e nela me aquieto, nos sussurros dos mortos que me falam pela tinta de noites desprovidas de perturbação.

Ouço o cadáver do Imperador, o exalar provindo de carne decomposta…ao contar-me como o reino de um escravo afiou a lâmina de um suicida…e dessa língua eu bebo gotas de tranquilidade intemporal.

Que todo o sofrimento seja absorvido pelos demónios que em mim habitam. Que façam dele alimento e força para prosseguirem viagem.

Aqui, não os quero mais.

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