Entasis
Há um silêncio que se encontra apenas no prazer.
Alexandre Montenegro convida-nos a despir não apenas a pele, mas a própria vontade, transformando o ato sexual num ofício religioso.
Aqui, o tempo — Cronos — é sacrificado no altar do 'l e n t o', onde o prazer não é um destino, mas um continuum hedónico de febre e presença.
Um momento em pano de fundo
Este texto surge como um eco de uma madrugada solitária, onde a figura de Lucille se materializa entre o pó das estantes e o brilho de uma secretária secular. É um convite ao despojamento do quotidiano medíocre para habitar um mundo de "aconchego acetinado" e "liturgias esquecidas". Deixa que a música das palavras te guie por este palácio de marfim.
Centelha na Noite
Nesta obra de poesia gótica, explora-se a fronteira ténue e perigosa onde a obsessão se encontra com a mortalidade. O texto mergulha nas profundezas do erotismo sombrio, rejeitando a mediocridade "castradora" das convenções sociais para celebrar o corpo como um templo sagrado e profano.
O eu-lírico confronta a existência desbotada através de uma voraz vontade de poder, onde o prazer não é apenas físico, mas uma rebelião metafísica contra o vazio. Entre "beijos de vitríolo" e "promessas carnívoras", convido-vos a testemunhar um amor que sobrevive à ruína, uivando pela lua mesmo diante da inevitabilidade do caixão. Esta é uma leitura para quem busca nas sombras a verdade crua da paixão proibida e do devaneio eterno.
Em Carne Viva
Em "Em Carne Viva", Alexandre Montenegro abandona a ternura do prelúdio. Aqui, o corpo é uma tela para ser marcada. É um texto sobre o "egoísmo hedonista", onde o clímax é arrancado através da exaustão e da "deliciosa devassidão". Ajoelhe-se perante o "dragão que desenha as costas"
Missa Libidinosus
A Liturgia:
Neste "credo" sombrio, o Vitoriano despe a culpa para vestir o desejo. A "Missa Libidinosus" não é uma prece aos céus, mas uma descida aos infernos do prazer, onde a penetração é a "lança que sublima" e a salvação reside na perdição da carne. Uma ode ao "templo de Sade" erguido sobre os escombros da moralidade.
O caminho do meio
O Vitoriano questiona a validade do clímax quando comparado com a arquitetura do desejo que o precede. Através de uma carta à sua musa, Lucille, somos convidados a rejeitar a pressa do "orgasmo vulgar" em favor dos segundos que "esventram a casca podre" da realidade. Uma ode ao suor, ao cheiro e ao silêncio que antecede o grito.
Nós, os Hiperbóreos
Friedrich Nietzsche escreveu: 'Para além do Norte, do gelo, da morte – a nossa vida, a nossa felicidade.' Este texto é uma carta geográfica dessa terra incógnita. Nós, os Hiperbóreos não é apenas um relato de paixão, mas um manifesto de isolamento partilhado. Aqui, o amor é um refúgio para os 'clandestinos afogados em fronteira', que olham para o 'Vale dos Adormecidos' com o desprezo de quem sabe que 'dEUS está morto'. Prepare-se para um beijo que não é prelúdio, mas sim 'leal à vitalidade da nossa natureza'.
Lucille Imperia Califórnia
Existem nomes que, quando pronunciados, fazem as sombras recuar. Lucille Imperia California é um desses nomes. Ela não entra num quarto; ela invade a realidade. Nesta narrativa, a cadeira elétrica deixa de ser um instrumento de morte para se tornar um trono de espera, onde o condenado aguarda não o fim, mas o 'consumo pornográfico' pela sua carrasca de pele mármore. O que se segue é o assassinato do Paraíso e a canonização do prazer em stiletto agudo
Canibal
Há musas que inspiram e musas que intoxicam. Neste texto, a amada é 'cocaína-mulher', inalada numa sofreguidão que mistura 'Baco' e 'Eros'. Aqui, o quarto transforma-se num 'falaciano palácio', onde a oração é feita de joelhos, mas não para pedir perdão — apenas para pedir mais. 'Reza-me em Sade' é o comando imperativo para um ritual onde o corpo é consumido em 'atrocidades canibais' e onde a única eternidade possível reside na profundidade de uma boca.
Avé-Magdala
Existem templos feitos de pedra e templos feitos de pele. Ave Magdala é uma genuflexão perante o segundo. Neste ritual, não há culpa, apenas 'moralidade suspensa' e a procura pela divindade através do toque. Quando o amante se torna devoto e a amada se revela 'santificada em túnica pecaminosa', o clímax deixa de ser apenas físico para se tornar uma 'beatificação pulsante'. Entre neste santuário, mas deixe a castidade à porta; aqui, reza-se com o corpo
Contração
Há pactos que não se assinam com tinta, mas com 'líquidos libidinosos'. Contração explora o momento exato em que dois amantes se reconhecem como predadores da mesma espécie. Aqui, não há vítimas, apenas 'demónios [que] partilham os mesmos apetites'. Num cenário de 'cabedal' e 'malícia carnívora', o corpo deixa de ser sagrado para se tornar algo mais útil: um 'brinquedo de prazer' desejado, trincado e esgotado até à exaustão final.
Perversa Pureza
Há uma linha ténue entre o altar e o abismo. Em Perversa Pureza, essa linha é apagada pela 'besta-homem'. Este não é um poema sobre amor cortês; é sobre a 'amarração celestial' que prende a vontade ao desejo. Aqui, o ato de 'soletra[r]... versículos' transforma-se num ritual físico, onde a 'doce palavra' sufoca e inunda. Prepare-se para uma confissão onde a 'salvação' é apenas um eufemismo para o clímax.
Noctem Voluptas
No auge da literatura erótica visceral, o corpo deixa de ser apenas anatomia para se tornar um banquete. Este poema apresenta a figura do "Soberano Devorador", uma entidade — real ou imaginada — que observa e controla o prazer feminino com um apetite voraz. O texto transita entre a realidade do toque solitário e a presença avassaladora dessa figura dominadora na mente da mulher.
Com uma linguagem que não foge da explicitude ("fonte clitoriana", "fluidos de luxúria"), os versos exploram a obsessão de ser consumida. É uma cena de "pornografia de febre-desejo", onde a impaciência e a espera ("Oh, que Ele não chega") funcionam como o tempero final para uma orgia de sensações. Aqui, a mulher é servida numa "bandeja" metafórica, pronta para a refeição final de um amor que é, em sua essência, um ato de canibalismo absoluto.
Compulsão
Existem desejos que não se pedem; tomam-se. Este poema não fala do amor que constrói, mas daquele que consome, que arrasta para o fundo como uma pedra preciosa atada ao tornozelo. É a voz da substância, da carne e da vontade oprimida que, finalmente, encontra a sua liberdade na total submissão. Quando a agulha do êxtase toca a pele, o tempo colapsa no 'nulo segundo'. Respire fundo. O que se segue é uma confissão de fome
Comunhão
O amor, na sua forma mais pura, é canibalismo. Em 'Comunhão', Alexandre Montenegro convida-nos para uma ceia profana à 'meia luz', onde os amantes não se unem, mas se consomem. Através da figura do Ouroboros — a serpente que devora a própria cauda — o poeta descreve um 'êxtase eterno' onde ser comido é a derradeira forma de pertença. Neste 'bafienta poltrona vermelha-sangue-túmulo', o sagrado é extirpado para dar lugar a uma 'fome por carne' que transcende a morte.
Venus Aversa
Existem fomes que a luz do dia não compreende. Neste poema, Alexandre Montenegro arrasta-nos para a 'negrura da nossa complicação', um espaço liminar onde a devoção se manifesta através do consumo. Aqui, o ato sexual despe-se de romantismo banal para vestir a pele do lobo: é urgente, é sujo, é sagrado. O leitor é convidado a testemunhar o momento exato em que a presa se torna o altar, e o predador, o sacerdote ajoelhado.
Bulb
Há momentos em que o desejo deixa de ser um mero capricho biológico para se tornar um ritual de aniquilação. Neste poema, descemos tateando pelas paredes húmidas de um castelo interior, onde o medo e o prazer — o tremor e o rubor — são indissociáveis. Aqui, o ato de amar é um ato de canibalismo sagrado: consumimos para não sermos consumidos, ou talvez, para nos rendermos finalmente à chama que nos devora. Preparem-se para tocar no proibido.
Dominus
Nesta obra, Alexandre Montenegro subverte a oração tradicional. O altar não é de pedra, mas de 'cetim vermelho' e 'cabedal'; a hóstia não é pão, mas o sabor a 'canela' e 'cera queimada'. O poeta coloca-se na posição de máxima vulnerabilidade — amordaçado e vendado — para descobrir que a liberdade suprema reside, paradoxalmente, na entrega total ao controlo do outro. O 'holocausto luxurioso' aqui descrito não é fim, mas transcendência.