Um momento em pano de fundo

Minha querida Lucille...

Por entre as linhas de textos lúgubres que me ocupam a madrugada... surge-me o teu rosto... e uma jura em que sinto o teu doce cheiro... que me acalenta e me deixa irrequieto nas noites sem ti.

Pensas em mim, no teu palácio de marfim, longe da minha solidão?

Espero que sim, que te sintas chamada de novo ao meu toque, ao ancorar no nosso olhar, sempre que estamos no nosso mundo, onde sorrimos pelos poemas partilhados.

Pensas-me junto do teu coração... no pousio da noite, enquanto esperas pela doçura de Morfeu? Talvez adormeças na febre temperada do meu arquétipo toque?

Que me pensas, nesta melodia que nos alimenta, por entre coisas tão tristes, a maioria faminta por encanto e beleza dos quais ambos conhecemos o sabor.

Serás tu presença constante na minha vida? Vieste para me agraciar com o teu bailado existencial onde te vejo em delicado equilíbrio?

Agradar-te-ia ser-me confidente, para lá de musa... caminho de recaída e ocasional aconchego acetinado, como espero sê-lo a ti?

Doce Lucille, a noite cai entre nós, e no entanto tenho-te como chama, que desejo eterna, nas madrugadas onde me calo, escuto, e de olhos cerrados pela solidão, imagino a tua dormente respiração a acalentar-me o rosto.

Quando me és brisa fugidia... bailado em salão renascentista, centro de atlas privado... diz-me, sentes-te tocada pela melodia do meu coração, quando te olho, e me enfeitiço pelo teu encanto?

O que farias se te olhasse, em abraço próximo aos teus oníricos lábios pelos quais a ti me uno, e em silêncio sorridente te envolvesse em eterna ternura?

Diz-me. Ainda aprecias música nas palavras que te escrevo... ou te inebrias com os estímulos que te trago ao olfato ao me submeter à tua presença?

Ainda te sou outro mundo, onde contas regressar, de quando em vez... ou transitei a doce lembrança... ecoante reverberação de violoncelo empoeirado?

Achas-me doce bálsamo quimicamente rebaixado a pernicioso vício dopamínico?

Nos taciturnos momentos em que poetas mortos interregnam liturgias esquecidas, sou agraciado pela doce lembrança do teu sorriso, pálido e delicado, tendo-me como motivo.

E na negrura de intelecto que persigo, sinto-me levado na tua mão, embalado na tua fragrância, na tola certeza, que apenas para mim tenho, de me ser eterna, e sempre-presente a tua pessoa...

Serei eu ingénuo por me sentir clave de sol na sonata da tua vida?

Por vezes, quando o luar amarelado de uma era passada se transluz sobre a madeira da minha secretária secular, interrogo-me se te sentes acarinhada, elevada acima do mundano cinzento, e longe desse medíocre e imposto quotidiano... se o mundo te desenha em carinho, em sorriso pastel de beijo pausado em avassalador amor que faz esquecer a amargura do vazio.

Termino este breve atrevimento, onde te pergunto e me procuro em ti, na interrogação sobre a permanência do nosso mundo…querendo-te solta em intenção…e pura para mim…

Espero-te no sussurrar do que sentes…

O Vitoriano

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