Depenar das Asas

um anjo, a preto e branco, de pele queimada, e asas depenadas e partidas.

A manhã é-me fria…na ausência do teu abraço. 


A tarde é vazia… nega-me o sabor dos teus lábios.


A noite traz-me horror solitário, infindável…

sonhos de carne inquieta… 

de coração enegrecido no teu breu de indiferença


Dois passos meus, peito dilacerado em procissão de entrega


Três passos teus para fora de mim, olhos desviados ignorando-me, aqui, para ti…

nada tens a fazer comigo…

sou-te criatura fora de compreensão…


por ser viva


livre


pulsada por inquietação 


por pensar, questionar,


perante dogmas… ajuizar!


Mão estendida em busca de ti

estendida ao nada


Nada


Na neve da indiferença… pétalas…

pétalas de jovem flor…

ressequidas, quebradiças

deixada por colher…


Queria-se jardim, suave em tato

pudesse eu obcecar com Perfume nunca cheirado…


Quem aqui puxa arado…

regozija-se no Desprezo pela Beleza…


Em silêncio noturno, cúmplice no toque, no sacramentar de ferida esfomeada…

…amor desprezado…


Na noite, somos em paralelo, na não correspondência à nossa natureza…

quem aplaca o insaciável que sinto?

quem o mata da minha mente?

quem me exorciza o corpo?


Ninguém (me) vem!

Rodeado de eunucos negligentes…


e definhamos…

definhamos… como estrelas sem planetas, constelações necróticas,  entre lábios rasgados por sorrisos violados em encenação 

tudo brilha, tudo é ouro…


Não pergunto.


Embalo-me por tudo estar no seu devido lugar… 

lugar onde eles residem, mentecaptos e

de mãos fechadas aos espinhos.


E as minhas? 

Perfuradas por carícias a rosas que quero na minha vida…


E sobre mim? 

Imperturbo-me!


Engulo a compulsão de mais-valia animal…

neste universo a dois…

no massacre de pássaro-desejo aprisionado.


Ecos de holocausto de paridade emocional…


nunca estarás vivo como eu…


para onde me arrastas…amaste-me, e agora matas-me…

para onde me arrastas…

na pequenez da tua mente…mortificas-me…

amortalho-me na permanência a teu lado.

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