Nós, os Hiperbóreos
Provo todos os sabores presentes no teu pescoço…
a doçura da aceitação, o fogo do desejo, e aquela, a outra palavra que sabemos presente,
mas por ser prudente deverá permanecer muda…
Percorro-te,
guiado por instinto carnívoro,
por carência,
entendimento das minhas paixões,
entendimento que encontro em ti…ao provar-te os lábios…em beijo fugidio como o ar que dele extraio para respirar.
Suave como a seda que passas sobre momentos da minha vida, tornando-os carinho.
Lábios que observo de longa data, neste momento em que a curiosidade se mata.
Sinto-os…fechados em torno dos meus, tornando a loucura que nos anima sublime…surreal… nesta realidade, instante, onde a minha presença a nada de mal se ancora, com exceção dos teus lábios.
Espreito-te o rosto, quando te provo mais, sem prévia razão que me fizesse desconfiar, que nos teus lábios queria acalentar a tua alma, que sinto pronta, em mim, a repousar nesta valsa de mal-amados, onde assim que por segundos, nossos lábios um no outro se trancaram, as bocas se abrindo, dois mundos se fundindo, no fluir de doce queima enquanto nos avançamos um no outro pelo beijar.
A verdade de gesto tão inesperado atinge-nos em nota grave, na constatação que todo o amante sabe:
Abaixo da cintura é orgasmo, mas…
O beijo é perdição,
é carinho,
é devoção,
é o afagar de almas sofridas que carecem de portos melódicos, onde o sussurro do coração se transporta na brisa de perfumada consumação de perigo, espalhando-a na água pardacenta das nossas carências.
Somos refugiados…clandestinos afogados em fronteira de prazer prometido, onde, por não nos pertencermos, nos imolamos em feroz fogueira, após julgamento dos eunucos, dos puritanos…dos tristes.
No livro de semelhantes juízes, o amor não sonha, a ternura… resseca-se na ausência do carinho.
Desnuda-te em tela, pronta para os meus dedos de mimo, que te apaga o agora com toque de algodão que teima e vem, enquanto te vens...a mim, em mim, no quadro de reino fantasioso onde somos reis, servos, iguais e súditos mútuos…
Quando para fora do sonho nos empurramos, bebemos da superstição que brota do peito firme e grego de jovem oráculo, sitiada em monte de vénus, hino de segredo feminino, do qual lambemos, degustamos e nos reclinamos na noite de tudo o que foi e tudo o que poderia ter sido.
O que me dás por me gostares…
o que me dás…por me gostares…
e por aí encontrares um pouco de outro abrigo, na minha arrogância te digo, o que te é por direito, por nunca teres experienciado a suavidade do amor-próprio, por nada se dedicar a ti, bailarina amarrada em sustenidos de frágil prelúdio de amor....
Pára.
Avalia.
Onde estás?
O que queres?
Alguém te corrompeu?
Decerto eu....
Desculpa-me....precipito-me sobre a faca por te ter contaminado....
Ou é sentimento de culpa sem carrasco que assola este que te escreve?
Ouve-me.
Sempre despertei outros sem conhecer o rompimento das minhas palavras em pele alheia.
É a hedionda filosofia do martelo...na montanha de Zaratustra da qual observamos o horror do Vale dos Adormecidos, lá em baixo, repleto de brutos, burros…a elite do desperdício de esperma.
Quando a guilhotina da autocondenação sibila em direção ao meu pescoço...lembro-me que dEUS está morto, e que o purgatório que me assombra é auto imposto, desajado.
Merecido.
Ninguém irá arder...
A entrada que te permito no meu Olimpo…tem pedido mortal - vê-me por aquilo que sou.
Vou, sem me deter, onde a inocente prisioneira sucumbe à moralidade alheia.
Insiste na lâmina que te canta a balada do bandido, esvai-te no tempo…no adormecimento que evita a dor imediata pela tecelagem de tragédia futura.
O enredo dos nauseantes eventos do dia a dia esmaga o nosso espírito, distende-nos em impossíveis existências que encontram bálsamo em fantasias meritóriamente criadas, onde respiramos, voamos, rendemo-nos um ao outro.
Pára.
Perigo.
Para ambos...
Sonhadores....
Um cínico é um ideólogo desiludido.
E no entanto...o que faríamos....
Na noite de delícias e mimos....
O que faríamos...
O sexo é canibal, e o carinho fundamental…lábios ramificam-se num beijo leal à vitalidade da nossa natureza.
Como te abraço…
Não me ostracizes dos teus braços. Na nossa bem merecida fraqueza, aceita-me sem nós sermos o que queremos - os que se trancam em beijos primaveris, repletos de verão, antes que o outono nos chegue como prelúdio de hibernação invernal.
Nada mais me resta escrever, pois quando a verdade é brasa, a folha incendeia-se, o prosaico sublima-se…
Demasiado intenso para me confessar...
Nós nascemos, mesmo em liberdade, para sofrer.